World Wide Web e a livre troca de conhecimento

Há aproximadamente 20 anos surgia a World Wide Web, fruto da proposta de criar um sistema de informação distribuída, baseado em hypertexto, de modo a evitar a perda de informações de documentação e pesquisa dentro do CERN. Como Sir Tim Berners Lee, autor da proposta, diz em documento enviado ao CERN em 1989,

 

“os problemas de perda de informações podem ser particularmente críticos no CERN, mas neste caso (como em outros), o CERN é um modelo em miniatura do que será o resto do mundo em poucos anos. O CERN se depara agora com alguns dos problemas com que o resto do mundo vai se deparar em breve.” *

 

A preocupação era não só lidar com a perda de informações, mas de possibilitar a troca mais ágil de documentos e processos, visando uma otimização de comunicação e progressivo aumento de compartilhamento e relacionamentos, gerando um desenvolvimento progressivo do sistema e das pesquisas. Inicialmente chamado de “Mesh”, esse sistema implantado no CERN viria a se tornar o que hoje conhecemos como World Wide Web (ou apenas “Web”, para facilitar).

A Web, é uma camada a nivel de software que opera na Internet, e proporciona o compartilhamento de arquivos e documentos de qualquer ordem (texto, imagem, video, foto), usando para isso o protocolo HTTP de transferência de arquivos (HTTP = HyperText Transfer Protocol). Hipertexto foi um termo cunhado por Ted Nelson, nos anos 50/60, para designar “informações inteligíveis ligadas entre si de uma forma irrestrita”, também relacionando isso ao termo “hipermidia”, tratando sobre informações de tipos diferentes, como texto e imagem, que  poderiam ser relacionadas através do hipertexto.

A Web foi, portanto, fundada tendo como principal objetivo o compartilhamento de arquivos e documentos que pudessem ser relacionados e “linkados” com outros de maneira irrestrita e acessível a todos.  Partindo dessa premissa, a W3C Consortium (Consórcio fundado em 1994 por Tim Bernes Lee, com apoio do MIT e do CERN, entre outros renomados institutos que aderiram depois), propõe os padrões para uma Open Web Plataform, conhecido como “Web Standards”, cuja base é a universalidade: “que qualquer um consigo publicar qualquer conteúdo online, e relacionar com qualquer outro conteúdo, não importa qual computador e software usem, ou língua que falem”.

Para isso, os webstandards definem o uso de HTML (HyperText Markup Language), CSS (de apresentação de conteúdo), JavaScript (manipulação em tempo real do CSS e HTML), SVG (para imagens vetorizadas), a Web Semâtica, Acessibilidade e, recentemente, incluem padrões para Web Mobile.

Todos esses padrões são fundamentais para tornar o conteúdo acessível, e a estrutura disso é baseada em três princípios básicos: escrever uma página em formato HTML, nomeá-la com uma URL e hospedá-la na Internet, num servidor acessível via HTTP. Você não precisa da aprovação de nenhuma entidade ou governo para publicar conteúdo na web, e é isso que a torna tão forte e importante.

A partir do momento em que vemos o crescimento do uso de smartphones para acessar conteúdos online, começamos a nos deparar com o mundo dos aplicativos móveis. Esses aplicativos são desenvolvidos em plataformas proprietárias (SDKs), sejam pagas (iOS) ou gratuitas (Android), e começam a transformar a maneira como acessamos e compartilhamos informações na rede. De certa maneira, esses aplicativos são um intermediário entre nós e tudo que a WWW de fato nos proporciona, restringindo a quantidade de informações acessíveis e tornando-nos cada vez mais circunspectos. Estamos deixando o mundo virtual coletivo e sem barreiras para uma era cada vez mais “filtrada”. E isso vale não só para aplicativos móveis, mas também (e talvez principalmente) quando pensamos em Google e Facebook, cujos filtros de conteúdo e publicidade já são bastante comentados. A questão principal é que tais monopólios acabam por criar mundos fechados, indo totalmente contra os princípios da WWW.

Outro ponto que torna a questão do acesso a internet via aplicativos móveis ainda mais drástica é que neles não existe uma URL, um modo de acessar e compartilhar as informações que você coloca dentro desse aplicativo, a não ser por ferramentas internas de compartilhamento. Você não consegue adicionar um hyperlink em uma palavra no seu post do facebook, por exemplo. As formas como a informação circula, portanto, tornam-se progressivamente mais obscuras. Isso não parece muito importante se pensarmos no uso que fazemos rotineiramente dessas ferramentas, transitando entre redes sociais, notícias e streaming de videos. Pelo contrário, o desenvolvimento de interfaces cada vez mais intuitivas e gestuais (GUI) facilitou o acesso para a maioria da população, que não precisa entender absolutamente nada de linguagem de programação para poder se comunicar e trocar documentos via internet. O avanço do uso de aplicativos móveis é só mais uma etapa dessa “evolução” em direção a interfaces cada vez mais intuitivas, que gera um volume exponencialmente maior de informação trocada e armazenada. Mas a ignorância progressiva sobre as camadas mais baixas de todo o sistema nos leva a ter cada vez menos controle sobre o conteúdo que produzimos e as informações que vemos e compartilhamos. Se, por um lado, conseguimos começar uma revolução, atraindo milhões de pessoas às ruas pelo uso das redes sociais, por outro, poderíamos ter acesso às informações do governo e de bancos de dados de universidades se soubéssemos operar nas camadas mais baixas, e entendessemos melhor o que é e para que foi criada a World Wide Web.

Referências:

*Sir Tim Berners Lee, “Information Management: a Proposal” (CERN, 1989) : http://www.w3.org/History/1989/proposal.html

Sir Tim Berners Lee, “Long Live the Web”, artigo na Scientific American

http://www.scientificamerican.com/article.cfm?id=long-live-the-web

W3C Consortium: http://www.w3.org/

Conferência de 20 anos da WWW, no CERN: http://www.youtube.com/watch?v=g4hO_-TuTlo

 (texto escrito para a disciplina Fundamentos de Interatividade e Tecnologia, na Pós-Graduação em Gestão da Comunicação em Mídias Digitais do SENAC-SP)
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