Como chegamos à Internet das Coisas, e para onde podemos ir – um breve recorte

“Interatividade” é o termo mais comum para descrever a comunicação humana contemporânea e parece ser o grande bem que as intermediações tecnológicas nos trouxeram ao final do séc. XX e começo de séc. XXI. Mas a história mostra que, antigamente mediada apenas por palavras, hoje por interfaces eletrônicas, a interação é o fenômeno essencial da comunicação humana, pois para existir o processo comunicativo, os sujeitos em questão devem ter um mesmo contexto psico/social e espaço/temporal; e condividir uma mesma intenção, ou seja, “eu e você estamos empenhados no mesmo assunto”. Somando as teorias cognitivas, os estudos de Vannevar Bush sobre o “Memex” (“As we may think?”, 1945), o On-line System de Doug Engelbart (1968), as Comunidades Virtuais e o hypertexto, o que chamamos, hoje, de “interatividade” é, portanto, a síntese de uma série de conceitos e sistemas desenhados pela evolução tecnológica e com bases sólidas no desenvolvimento do nosso próprio processo cognitivo. Hoje, as interfaces são diversas e, na relação comunicativa com essas estruturas, vemos não só a mímese do nosso próprio fluxo cognitivo, como Bush, Engelbart e Levy previam,  mas, paradoxalmente, estamos experimentando um momento em que essas interfaces modificam não apenas nossas relações interpessoais, mas, principalmente, nossos próprios processos cognitivos. No ritmo vertiginoso de inovação pelo qual a Web passou desde o seu surgimento e popularização, um ponto interessante da cultura digital atual, é a penetração dos dispositivos “conectados” em nossa rotina, culminando com a “Internet das Coisas”, vitrine maior, a meu ver, da Web 3.0 e epítome maior do conceito “Centrado no Usuário”. Falo não só do rastreamento dos dados e informações, mas principalmente de ubiquidade, mapeando o usuário a partir de seu comportamento de navegação (o que inclui também seu comportamento no mundo real): é a geladeira que diz o que está faltando e já faz a compra, é o sistema de automação doméstico ligado ao Yahoo!Weather, é o Google Glass. É possível que, apesar de frente a frente com um outro indivíduo usando Google Glass, não tenhamos um mesmo contexto comunicativo – e, portanto, a comunicação seja falha – algo que já podemos observar em mesas de bares, onde os amigos estão olhando mais para os smartphones que conversando “ao vivo”. Todos esses dispositivos conectados e inteligentes, facilitam a nossa vida, ao mesmo tempo que podem “atrofiar” nossas capacidades cognitivas (segundo phd. Leonardo Giusti, MIT Mobile Lab), levando, a longo prazo, na diminuição brusca de nossa capacidade de memória, por exemplo. Eu não preciso mais lembrar o que falta na minha geladeira – e nem o que eu gosto de comer – ; também não preciso lembrar do caminho até minha casa, e nem mesmo de que cor é minha casa. Basta falar com meu Google Glass, e ele mostra o caminho, e a casa, já com a geladeira cheia. As interfaces estão deixando de ser intermediações tecnológicas no processo comunicativo para tornarem-se extensões de nosso corpo, essencias para cumprirmos tarefas cotidianas de nossa vida contemporânea. Tais tecnologias ainda sequer popularizaram-se, mas o futuro será claramente ditado por dispositivos cada vez mais integrados, centrados no ser humano e “invisíveis”. Ainda há muito o que propor em termos de modelos de negócios e estratégias de marketing, no que tange tais dispositivos. O tripé “tecnologia – comportamento – economia” está mais firme do que nunca, ao mesmo tempo que cada vez mais dinâmico.

 (texto realizado para a disciplina Narrativas e Contextos da Cibercultura, na Pós-Graduação em Gestão da Comunicação em Mídias Digitais do SENAC-SP)

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